18
Fev 10

 

A metáfora da caixa continuou a persegui-lo até ao hotel. Já no quarto, desapertou a pequena bolsa aveludada do netsuke que adquirira ao casal japonês. Até o daymio, sorridente, trazia entre as mãos uma caixa. Fechada, claro. 

Segurando na pequena escultura, deixou deslizar distraidamente os dedos pelas curvas da madeira polida. A caixa e a espada impediam-no de rodar continuamente a figurinha entre os seus dedos da mão direita, como desejava. Um desejo que o surpreendeu. Pensou nos gestos instintivos de quem rodava as contas de um rosário. Lembrou-se das ave-marias e pai-nossos que as beatas idosas repetiam diariamente na matriz da sua cidadezinha natal. Rostos quase esfumados na penumbra do templo, de bocas enrugadas e envelhecidas. Mãos artríticas tremendo lentamente. Movendo os lábios como autómatos, aquelas figuras espectrais, negras, ciciavam orações que pareciam intermináveis lenga-lengas mágicas, girando vezes sem conta as esferas dos rosários.

Rosários que mais tarde se voltaram a recortar contra a ofuscante brancura da cal mediterrânica e se multiplicaram pelo oceano fora. Em Port Saïd, o velho muçulmano segurando as contas numa mão e tapando o rosto para a fotografia com a outra. No Caïro, as contas de um colar de marfim no colo macio de Boubouka. Depois da neblina do Índico, já em Macau, a serena imagem de um sacerdote budista sobressaindo das nuvens de incenso. As mãos, quase imóveis, segurando delicadamente um rosário.

A caixa e a espada. As esferas. Todos estes elementos lhe pareceram constituir símbolos de um quebra-cabeças que tinha de resolver. Não conseguia, contudo, compreender onde isso o levaria. Desistiu destas reflexões e aproximou-se da janela.

Olhando para a avenida Almeida Ribeiro, notou o contínuo movimento dos transeuntes em direcção ao hotel. Quando chegara a Macau, vendo o movimento na rua, pensara que o mercado de S. Domingos, ali ao lado, tinha mercadores como nenhum outro. Só depois percebera que a maioria eram clientes do hotel. Clientes mais do que hóspedes, pois vinham assistir aos famosos espectáculos do Club Hou Heng, no sexto andar, ou arriscar a fortuna e a vida ao jogo. O elevador, o primeiro de Macau, inaugurado em 1928, ainda o hotel  era o President, havia sido já uma metáfora dos altos e baixos do jogo, mas agora, com as constantes avarias, o trocadilho passara para a altura do edifício, com as entradas pela portaria e as saídas pelo telhado. A tradicional discrição dos suicídios silenciosos e privados, por envenenamento, cedia, ocasionalmente, à vertigem do terraço que proporcionava uma última visão de Macau.

Sentiu-se subitamente entediado com aquela vida impessoal no hotel e achou que deveria começar, finalmente, a procurar casa. Teria, além disso, de visitar as ilhas e Hong-Kong. E não o queria fazer sem antes ter arranjado um espaço seu, onde pudesse acumular depois as memórias dessas visitas e dessas viagens.

 

Macau, cerca de 1936.

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 21:27

 

Estranho. Era tudo muito estranho, embora tivesse acontecido naturalmente. O inacabado passeio pela marginal. O  inevitável regresso à Rua de S. Domingos. A entrada naquela loja. Nada fazia sentido, mas tudo parecia encaixar-se. Veio-lhe à memória a imagem da caixa de segredo japonesa. Era isso mesmo. Tudo parecia encaixar-se, agora que o velho comerciante ("Tchang, chamo-me Tchang...") decidira convidá-lo a ver o que estava para além da porta do meio.

Entrou. O barulho que imaginara quase não existia. A luz, escapando-se envergonhadamente de três ou quatro pequenas lâmpadas, iluminava uma dúzia de corpos dobrados sobre velhas máquinas de costura. Um espaço minúsculo. Mulheres idosas, de costas curvas, levantaram estranhamente as cabeças, criando imagens retorcidas, cheias de rugas e traços curvilíneos que pareciam gritar silenciosamente.

As sombras davam uma ar deprimente a todo aquele cenário. Já nada fazia sentido, afinal. Tudo parecia um intrigante labirinto. Um labirinto disfarçado por um eclipse, súbito,  que ameaçava eternizar-se. Da penumbra surgiu então um quarto crescente. Um quarto crescente negro. Negro de azeviche. E desse negro absoluto, desse negro indizível, surgiu uma radiante lua cheia. Uma lua cheia alva de neve e sorridente. "Liang, a minha sobrinha-neta", disse Tchang. "O meu outro sobrinho anda pela Europa, com um jornalista belga e um velho marinheiro. Uns aventureiros que o desencaminharam..."

Liang sorria, olhando para o chão. O  recorte do seu cabelo descaído, negro de azeviche, lançava-se para a frente, desenhando duas curvas que quase se tocavam. Estranho coração, aquele... "Podes ir, Liang...", disse Tchang. "Subimos, senhor?"

Encontrou-se de novo na loja, sem se ter apercebido dos degraus ou da subida. "Quererá escolher alguns botões-de-punho para o fato?" Botões-de-punho? Claro... Aquela loja também teria botões-de-punho... De gavetas que pareciam não existir surgiram vários tabuleiros aveludados. A prata e o ouro refulgiam entre outros metais. Escolheu um par de botões japoneses que lhe recordavam o ouro embutido de Toledo. Uma vista do Fuji. Uma paisagem solitária. Sem pessoas. 

Teve novamente consciência da sua solidão. Uma solidão agora banhada de luar. Recordou-se uma vez mais de Reis, em quem quase não pensara desde Port Saïd, e de alguns dos seus versos. "Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio. / Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos / Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas." Não trocara uma única palavra com Liang, nem sequer lhe sorrira. Imaginou Boubouka com o sorriso tímido de Liang, e imaginou-se a enlaçar as mãos com uma Lídia que parecia Boubouka. Imaginação. Tudo era imaginação. "Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos". Mas seria que apesar das coincidências nada fazia sentido, afinal?

Olhou mais uma vez  para os botões-de-punho. Vendo o Fuji, pensou no casal japonês que conhecera no Sibajak, e no que estes haviam dito quando lhe ofereceram a caixa de segredo – "É preciso tempo e paciência para se aprender a abrir uma destas caixas..."


Macau, cerca de 1936.

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 10:20

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