17
Fev 10

 

Ilustração de Câmara Leme (1930 -1983).

 

A porta fechada representava um enigma que o fascinava. Deixou que o velho comerciante desempenhasse as suas funções de alfaiate e lhe tirasse as medidas, mesmo antes de ver se havia alguma fazenda que lhe agradasse. Ansiava por uma oportunidade de o questionar sobre o que estaria para além daquela porta e esperava que  ele lhe dissesse "São as nossas oficinas de alfaiataria", convidando-o a entrar e a transpôr aquele obstáculo que ele acreditava ser o acesso secreto a um mundo mágico.

Esperava descobrir um mundo industrial, secreto, para além daquela porta, onde muitas centenas de trabalhadores manufacturariam, como que mecanicamente, sigilosamente, peças de vestuário para todo o mundo. Operários costurando e cosendo em silêncio, sustendo quaisquer diálogos, ouvindo o repetitivo e ensurdecedor barulho das máquinas, que abafaria todas as conversas. Conversas retidas nas gargantas. Conversas que nunca poderiam ser iniciadas, apesar de cuidadosamente imaginadas e completamente elaboradas.

Descobriu um tecido riscado, de finas e discretas listas verticais, que quebrava a monotonia de todos aqueles tecidos monocromáticos. Sendo embora escuro, ganhava alguma leveza com as riscas claras. Um fato que serviria para dias de chuva. Dias que, ali, poderiam vir a ser muito mais escuros que aquela fazenda. Mas seria aquela uma escuridão passageira, caso fosse semelhante às tempestades tropicais que recordava de África.

Depois de lhe indicar o tecido, aguardou pacientemente que o alfaiate tirasse de novo as medidas, muito devagar, e as anotasse meticulosamente, como que desenhando cada caracter. Não sabendo porquê, esperava ver sair do pequeno lápis letras e números familiares, ocidentais. Talvez porque o giz deslizara também familiarmente pelo tecido, como se conhecesse já cada curva do seu corpo e cada rebordo destinado a uma baínha ou a um recorte. No entanto, não ficou surpreendido quando viu todos aqueles caracteres estranhos gerados pelo lápis. De todos eles, só reconheceu o caracter referente a "homem". Um triângulo quase isósceles, de linhas curvas, desiguais no seu comprimento, viradas para o interior, côncavas. Um triângulo aberto, sem base. 

Olhou para o azul e vermelho do lápis e voltou a recordar a porta. Procurou-a, novamente. A porta. Havia também um caracter que ele reconhecia, naquela porta. Um caracter inscrito a vermelho. Um rectângulo cortado a meio por um longo segmento de recta. Meio. Era isso mesmo. Meio. "Meio, porquê? Meio, de quê?" Esqueceu toda a discrição, deixando que a curiosidade tomasse conta de si. Instintivamente, deu voz às suas dúvidas. "Para onde dará aquela porta? Para que servirá?". Reparou que o velho comerciante recebera aquelas perguntas com surpresa, pensando que lhe eram dirigidas. Receou tê-lo ofendido, mas não se conseguira conter. Falara em voz alta como se estivesse sozinho.

Notou um sorriso que lhe pareceu um sorriso de quem aguardava há muito aquela pergunta. Ouviu então dizer, suavemente, num tom de voz que parecia um convite – "Aquela porta dá para as nossas oficinas de alfaiataria..."

 

Macau, cerca de 1936.

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 20:58

 

Entrou, não sabendo por que entrava. O seu olhar continuava fascinado pelos múltiplos brilhos daqueles inúmeros botões. Botões de madrepérola, de osso, de marfim. Botões de metal, de vidro, de madeira. Botões de plástico e baquelite. Botões de massa e de pedra. Jade e malaquite. Ónix e olho de tigre. Azeviche. Um mundo caótico e heterogéneo, alternando brilhos ofuscantes com pequenas sombras, que sugeriam discretos segredos.

Uns dedos de unhas largas e achatadas, de mãos lembrando a lisura do pergaminho, afastaram da sua vista, lentamente, o brilho hipnótico daquelas minúsculas preciosidades. Parecendo despertar de longo encantamento, tentou compreender o que fazia ali, naquela pequena loja, que cada vez parecia mais sombria. Olhou à sua volta. Fazendas e fitilhos. Tudo harmoniosamente empilhado em prateleiras, exibindo cores gritantes, decorações exuberantes. Tecidos alegremente femininos e orientais na sua opulência colorida. Aproximou-se de algumas peças, deslizando lentamente os dedos por aquelas cores inacreditáveis. Sentiu a espessura lenta dos veludos, a velocidade deslizante das sedas.   O que é que fazia ali, afinal?

"Talvez lhe interesse um fato por medida?", ouviu, numa voz que, tendo pronunciado apenas um único "r", lhe pareceu trocar os "rr" pelos "ll"... O velho comerciante falava Português. Com um sotaque muito próprio, é claro. "Desculpe todos estes botões espalhados. São peças preciosas, sabe... O luxo das cabaias também depende destes detalhes..." (Ahá! Desta vez iria jurar que o "r" tinha saído enrolado, mesmo, tornando "pleciosas" as peças...) Esquecendo a fantasia daquele preconceito disparatado, pensou no ridículo da oferta. "Um fato por medida, com aqueles padrões?"

O comerciante pareceu adivinhar a sua perplexidade. "Se tiver a bondade de descer por além, poderá ver tecidos mais discretos, para homem." Desceram para a cave. Escura. Parecia estar ali o depósito de toda a sóbria discrição dos fatos ocidentais. Um armazém da moda masculina europeia e do seu conservadorismo, em tons de castanho, cinzento e preto. Mas ao fundo, como que brilhando entre toda aquela monotonia, surgia o resplendor claro do linho e do algodão.

Havia também uma pequena porta. Fechada. Para além dela, o que parecia ser o ruído da cidade. E o ruído da multidão nas ruas da cidade. E o ruído de milhares de motores e  milhares de máquinas. O ruído das fábricas que pareciam não existir naquela cidade. 

 

Macau, cerca de 1936.

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 10:56

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