16
Fev 10

 

Caminhando em direcção à Praia Grande, viu dezenas de juncos e algumas sampanas com as velas desfraldadas. As velas, imóveis, de um branco sujo de pano crú, pareciam desenhar um extenso biombo. Um biombo constituído por inúmeras asas de morcegos albinos. Asas de uma palidez esquálida, de uma lividez repelente. Asas estranhamente silenciosas, anquilosadas, paralisadas. À esquerda, depois da colina, estendia-se o vasto aterro do Porto Exterior. A azáfama nas embarcações contrastava com a acalmia das velas e das águas. Águas escuras, esverdeadas, quase sem ondulação. Lembrou-se das águas cor de azeite de António Nobre. Lembrou-se do inevitável lugar-comum da literatura. Sozinho na multidão. E aquela que lhe parecera sempre uma ridícula imagem, exagerada pelos escritores, fez sentido. Só. Sentia-se só entre toda aquela gente, entre todo aquele movimento, entre todo aquele barulho.

Virou subitamente costas ao mar, àquele triste mar cor de azeite. Não estava no Canal da Mancha, nem queria que o deixassem chorar. Dirigiu-se para os bairros que já conhecia. Preferia sentir-se só em lugares que lhe eram familiares. Sem qualquer pensamento irónico, deu por si novamente na Rua de S. Domingos. Descobriu letreiros que não tinha visto, frases que nunca pensara existirem. Coisas estranhas. Caracteres de dimensões avassaladoras inscritos em pequeníssimas tabuletas. Combinações linguísticas que pareciam saídas de manifestos e poemas modernistas. Caracteres orientais que se entreteciam com letras ocidentais, criando frases surpreendentes, realidades inesperadas. "Há mobílias de madeira sun-chi e quan-tin para vender e alugar", lia-se num pilar da carpintaria Iu-Seng e C.ª. Mergulhou de repente nos versos de Sá-Carneiro. Manucure. Sentia-se confuso com as reverberações, com os sons, com o ressoar das memórias. Vívidas imagens da rua cruzavam-se com nítidas palavras do passado, intersectando-se, rejeitando-se, amalgamando-se. Criando uma claridade ofuscante e ensurdecedora.

"Xue! Xue!", ouviu. Era uma voz nervosa, masculina mas alquebrada, que vinha da cave de uma loja. A princípio pensou que se dirigia a si, que o estavam a enxotar por se ter encostado momentaneamente  a um pilar da loja. Depois percebeu que a voz, embora viesse de dentro, também se dirigia para dentro, para o fundo da loja. Espreitou. Parecia-se com as retrosarias ocidentais. Tecidos, acessórios de costura, linhas, botões. Ao cimo de umas escadas, na indefinida fronteira entre a claridade da rua e a penumbra da loja, um velho segurava nas mãos mostruários de fitas para debruar, enquanto chamava alguém. Ao lado, sobre uma mesinha, dezenas e dezenas de botões avulso, espalhados numa harmonia caótica, brilhavam como pequenas preciosidades.

Por momentos, o olhar do comerciante cruzou-se com o seu. Um sorriso sucedeu ao chamamento. Foi convidado a entrar. Deixando-se envolver pela penumbra, entrou.

 

Macau, cerca de 1936.

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 20:53

Mapa de Macau publicado em 1955.

 

"Ni hao!" Gostava de ouvir esta saudação pela manhã, mesmo sabendo que não era a mais respeitosa de todas e que muitas vezes estariam a pensar nele como intruso, um san-kuai, e o amaldiçoariam mentalmente como a um diabo estrangeiro.

Era estranho, mas à medida que ia ouvindo novas palavras e começando a perceber parte do seu significado, sentia que ia deixando fugir um pouco do cativante mistério da China. Gostava de ouvir palavras desconhecidas e de se deixar levar para um mundo de fantasia pela diferente sonoridade das vozes. Um mundo de sons com significados aleatórios, ou sem outro significado que a sua própria sonoridade, uma sonoridade mágica e desconhecida. Um mundo que agora ia desaparecendo. As palavras começavam a ter significados concretos e deixavam de ser apenas sons encantatórios, passando a traduzir muitas vezes a desilusão e a monotonia de um quotidiano repetitivo.

Acontecera-lhe, entretanto, ser surpreendido pela subtileza das sonoridades. Descobrira que os macaístas preferiam o termo jirinchá a riquexó. Menos anglicizante, diziam. Consideração que não deixava de ser curiosa numa terra onde os comerciantes aceitavam de bom grado a moeda corrente de Hong-Kong, preferindo-a muitas vezes às patacas do Ultramarino... Também não deixara de ser curioso o encontro que acabara de ter com algumas autoridades do território e alguns desses macaístas patriotas, ciosos da nacionalidade portuguesa. Achou particularmente intrigante a insistência com que lhe sugeriram uma visita às ilhas vizinhas. Lapa, D. João e Montanha. Compreendeu que teria de aceitar a sugestão. No Oriente, as insistências veementes podiam corresponder a uma ordem irrecusável, e as aquiescências sorridentes a uma negativa silenciosa, continuamente adiada. Mesmo quando o discurso vinha de portugueses. Portugueses residentes em Macau. Macaístas.

Procurou Tai-Vong-Cam num mapa. A Ilha da Montanha. Das três, aquela que ficava mais a sul. Ocorreu-lhe a conversa que tivera momentos antes sobre Cantão. Sobre as redondezas, sobre a província, sobre aquela região da China. Lembrou-se de uma expressão. Heang-Chan. As Montanhas Perfumadas. E percebeu o seu enlevo. Ao contrário do que pensara até ali, conseguira ainda encontrar palavras misteriosas. Palavras que, mesmo depois de traduzidas, continuavam a encerrar magia. Palavras que, depois de traduzidas, acentuavam ainda mais essa magia.

A norte, junto de Cantão, Pac-San, a Montanha Branca. A sul, Tai-Vong-Cam, a Ilha da Montanha. Heang-Chan. Estava nas terras de Heang-Chan... Estava na terra das Montanhas Perfumadas. 

 

Rede de pesca conhecida como sarambau. Macau, cerca de 1936.

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 10:50

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