03
Mar 10

 

Por entre os aromas, as cores e as vozes, o rosto de Liang ergueu-se. Uma sorridente lua cheia, pairando por instantes sobre a mesa, iluminando o enlevado olhar do convidado. Um olhar que se perdia nos movimentos suaves que a faziam levitar e a levavam para além da sala.

Regressou pouco depois, acrescentando solenidade ao sorriso quando entregou uma pequena caixa de madeira a Tchang. O ancião recebeu-a com cerimónia, sorrindo também para Liang. "Obrigado, Xue", disse. Estranhou aquele tratamento, que misturava duas línguas e lhe lembrava o chamamento que pela primeira vez o levara a entrar na loja.

Tchang estendeu então as duas mãos para o convidado, oferecendo-lhe a caixa com grande solenidade. Recebeu-a, aguardando as palavras que deviam acompanhar a oferta, como era tradicional. E as palavras vieram, breves e sincopadas. "Para que deixe a sua marca onde quiser e quando quiser. Um pequeno sinete. Por favor aceite-o como prova da nossa amizade."

Aceitou em silêncio, sorrindo e baixando levemente a cabeça. "Aceito, com grande regozijo pela nossa amizade", disse depois. E nada mais acrescentou. Sabia que o resto da satisfação deveria ser traduzida por gestos e expressões de admiração perante o objecto.

Notou que a caixa era folheada a madeira de carvalho. Madeira de veios largos e longos, madeira de árvore velha. Poderiam ter utilizado qualquer uma das muitas e preciosas madeiras orientais. Mas não, haviam escolhido precisamente o carvalho. Madeira que teria vindo da Europa, ou então do Japão. Não era comum na China. Sabiam o seu significado para os europeus.

Levantou cuidadosamente a tampa. No interior, entre a sumptuosidade de um veludo carmim e o aroma da cânfora, estava o sinete. Uma peça delicada, com um dragão cinzelado em espiral. Símbolo da longevidade. Levantou os olhos para Tchang, que leu o agradecimento no seu olhar e lhe disse: "Está em branco, para que possa colocar as iniciais que entender, quando entender".

Lembrou-se do leque em branco que lhe haviam oferecido no Sibajak e das palavras que acompanharam a oferta: "Um leque destes lembra-nos o resto da nossa vida, os anos que ainda temos para viver, aquilo com que queremos preencher esse espaço. Sempre poderemos escolher o tecido e a decoração a nosso gosto..."

Liang olhava-o também. E assim ficou o seu olhar, suspenso entre Tchang, o sinete e Liang. "Em que estás a pensar?", perguntou a si próprio. Não, não queria pensar, nem queria sentir.

 

© Rua Onze . Blog

publicado por blogdaruanove às 14:22

09
Fev 10

Bilhete postal circulado em 1918, de Singapura para o Brasil.

 

Três dias depois estava em Singapura. O calor recordou-lhe Angola. Mas aqui a humidade era maior. Deambulou pela cidade, como sempre fazia, de máquina fotográfica a tiracolo. Ia sorrindo. Saudava sempre os novos lugares com um sorriso. Ainda que fosse um sorriso melancólico, como este.

Aquela cidade tropical parecia o modelo perfeito da organização colonial inglesa. A Companhia Britânica da Índia Oriental tinha desempenhado bem o seu trabalho no século XIX. E o governo da rainha Victoria não aproveitara menos bem o enorme potencial da região quando a coroa assumira a administração do território, décadas mais tarde... Em pouco mais de cem anos Singapura passara a ser uma próspera e exemplar cidade colonial... Continuou a sorrir, desta vez com ironia... Sob a administração da coroa, quem teria passado a lucrar com o tráfico de ópio?

O artificial aspecto britânico da colónia mal escondia, porém, toda a vivacidade e originalidade das terras asiáticas. Os britânicos administravam e dominavam. À superfície. Bem lá no fundo, nos bairros dos arredores, afastados da hierarquia ocidental, predominavam outras hierarquias e outros costumes.  

Encontrou um laboratório fotográfico numa rua próxima da Cavanagh Bridge. A troco de umas moedas conseguiu a revelação para o mesmo dia. Aquelas casas estavam habituadas a turistas endinheirados e passageiros apressados. O trabalho de dois ou três dias fazia-se em poucas horas, desde que bem pago. No Oriente, como em todo os lados, o dinheiro abria quase todas as portas.

Tinha de admitir que era um fotógrafo inveterado. Amador, mas inveterado. Um maníaco das imagens. Por isso queria as películas logo reveladas. Sabia que a humidade não era grande coisa. Nem para europeus, nem para máquinas fotográficas, nem para películas...

Jantava-se cedo nos trópicos. Pouco depois de o sol se pôr levantou-se da mesa e foi recolher as fotografias. Não conferiu nem abriu o pacote. Levou-o de imediato para o Sibajak e depositou-o na mesinha do camarote.

Na manhã seguinte, já ao largo, encontrou as fotografias espalhadas pelo camarote. A única fotografia em que ele aparecia, tirada por um prestável e sorridente ciclista, um fotógrafo ocasional convencido através de aturada gesticulação, tinha a sua imagem completamente riscada. A tinta verde. Uma tinta que ele muito bem conhecia.

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 20:26

 

Acordou com Boubouka aninhada em si. Dormia, ronronando suavemente. Levantou-se com cuidado, para não a incomodar. Entrou no quarto de banho sem acender a luz. Tacteou, procurando a torneira. Um sonho preocupante acordara-o. Mas não se conseguia recordar de nenhum pormenor. Refrescou-se com água, fechou a porta e acendeu a luz, procurando uma toalha. Limpou-se lentamente, quase acariciando cada curva do rosto. Levantou a cabeça, retirando a toalha. O seu reflexo no espelho deixou-o perplexo. Tinha a barba crescida e completamente branca. Uma calva enorme e bronzeada. O rosto  moreno, gasto e cheio de rugas. Envelhecera décadas... Abriu ansiosamente a porta e voltou ao quarto, procurando Boubouka. Não estava ninguém na cama. Apenas os lençóis amarrotados, como se alguém os tivesse retorcido ansiosamente. Para lhes espremer desesperadamente todas as memórias. As memórias imaginárias de uma estreita e solitária cama de solteiro.

Soergueu-se no leito. A boca aberta, arfando, quase sem ar. As pulsações parecendo levar a resistência das veias ao limite. Este era  um sonho recorrente desde que deixara o Caïro. Um sonho dentro de um sonho. Não sabia quantas vezes já acordara assim, aflito, após ter embarcado novamente no Sibajak. Sentiu na cama o embate das ondas, o ondular do navio. Estava mesmo acordado. Tentou acalmar-se.

O tempo passara a ser algo de impreciso depois do Caïro.  O dia de hoje parecia  não existir, era o de ontem e o de amanhã. Os dias como um só. Não recordava refeições, não recordava rostos nem passageiros. Tudo era uma eterna neblina. Uma neblina interior que nem sequer a brisa marítima dissipava.  

"Sabang, Sabang!", anunciava o steward pelos decks. O som distante entrou pela vigia como o eco ensurdecedor de um gigantesco gongo. "Sabang!"

Parecia impossível! Estavam a chegar à Indonésia.

 

O navio Sibajak ancorado em 1936 no porto de Sabang, ilha de Weh, Indonésia.

  

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publicado por blogdaruanove às 10:16

05
Fev 10

 

A escala em Port Saïd trazia-lhe à memória a estadia em Angola. Quatro anos. S. José do Lubango e Luanda. A frescura do planalto e a brisa marítima do litoral. Uma vida calma. Mais dois filhos. E um troféu da carreira de tiro de Luanda. Belo troféu. Um caçador em trajo da Baviera, penacho no chapéu, colocando cartuchos na caçadeira. O seu orgulho. Todos os outros atiradores haviam ficado de olho nele... Devia ter sido isso que lhes distraíra a pontaria.

Mas o Egipto era bem diferente de Angola! África, sim, mas outra África. Não tivesse ele navegado brevemente ao longo das margens do Nilo,  enquanto o navio escalava as proximidades do Caïro, e diria que o país não era um país. Antes um extenso deserto. Um outro calor. Mais seco, mesmo à beira-mar. 

As mulheres, no entanto, misteriosas e atraentes. Em todas adivinhava as coxas roliças, as ancas generosas, a estreita cintura de bailarinas. Sob as vestes, todas ensaiavam uma lenta e sedutora dança do ventre. Sob o véu, todas pronunciavam ternas palavras... Palavras cheias de encanto, numa língua desconhecida... Na medina, jovens passeavam recatadas, junto das mães. As vestes deixando uma fragância adocicada, logo absorvida por pequenos botões de resina aromática. Os ramos de noiva expostos nos ourives. Incenso e coral. O coral dos ramos de prata reflectindo-se na cor de alguns brincos. O incenso regressando à rua. As vozes misturando-se com risos de alegria. Todo aquele movimento parecendo uma irresistível dança colectiva, convidando-o a descobrir a cidade. E as promessas da madrugada.

Antes de a noite acabar, envolto pelos braços e pelas consoantes ciciadas de Boubouka, tinha já tomado uma decisão. As coxas longas e tépidas da dançarina prendiam-no. O serpenteante umbigo  hipnotizava-o. O longo cabelo perfumado cegava-o. Deixaria partir o Sibajak. Seguiria no próximo avião.

 

 

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publicado por blogdaruanove às 18:20

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