05
Fev 10

 

A escala em Port Saïd trazia-lhe à memória a estadia em Angola. Quatro anos. S. José do Lubango e Luanda. A frescura do planalto e a brisa marítima do litoral. Uma vida calma. Mais dois filhos. E um troféu da carreira de tiro de Luanda. Belo troféu. Um caçador em trajo da Baviera, penacho no chapéu, colocando cartuchos na caçadeira. O seu orgulho. Todos os outros atiradores haviam ficado de olho nele... Devia ter sido isso que lhes distraíra a pontaria.

Mas o Egipto era bem diferente de Angola! África, sim, mas outra África. Não tivesse ele navegado brevemente ao longo das margens do Nilo,  enquanto o navio escalava as proximidades do Caïro, e diria que o país não era um país. Antes um extenso deserto. Um outro calor. Mais seco, mesmo à beira-mar. 

As mulheres, no entanto, misteriosas e atraentes. Em todas adivinhava as coxas roliças, as ancas generosas, a estreita cintura de bailarinas. Sob as vestes, todas ensaiavam uma lenta e sedutora dança do ventre. Sob o véu, todas pronunciavam ternas palavras... Palavras cheias de encanto, numa língua desconhecida... Na medina, jovens passeavam recatadas, junto das mães. As vestes deixando uma fragância adocicada, logo absorvida por pequenos botões de resina aromática. Os ramos de noiva expostos nos ourives. Incenso e coral. O coral dos ramos de prata reflectindo-se na cor de alguns brincos. O incenso regressando à rua. As vozes misturando-se com risos de alegria. Todo aquele movimento parecendo uma irresistível dança colectiva, convidando-o a descobrir a cidade. E as promessas da madrugada.

Antes de a noite acabar, envolto pelos braços e pelas consoantes ciciadas de Boubouka, tinha já tomado uma decisão. As coxas longas e tépidas da dançarina prendiam-no. O serpenteante umbigo  hipnotizava-o. O longo cabelo perfumado cegava-o. Deixaria partir o Sibajak. Seguiria no próximo avião.

 

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 18:20

  

Port Saïd, 1936

 

Era uma longa viagem por mar. Quase dois meses, de Lisboa a Macau. Mais de duas semanas, de Port Saïd a Singapura.  E agora tinha o anúncio da KLM, ali, a tentá-lo. Antes tivesse apanhado o avião. Fazia escala mesmo ao lado, no Caïro, seguindo logo após para Gaza, Bagdad, Karachi e Bangkok. Ainda poderia apanhá-lo... Mas depois teria de descer em Palembang ou Batavia para apanhar novamente o barco... Não, seria melhor continuar no Sibajak. Um navio cómodo, construído oito anos antes, remodelado havia poucos meses. Além disso, vinha quase lotado desde Roterdão e os portugueses eram poucos. Disfrutava, assim, de uma presença discreta, quase anónima. Situação muito do seu agrado.

Os pensamentos ocupavam-se já de outros assuntos. Amigos que se afastavam ou desapareciam. No ano anterior, em Julho, soubera que o Miguéis partira para Nova Iorque, sem intenções de voltar. Agora, a carta. Recebida na posta restante do porto, escrita por um miúdo que lhe era quase desconhecido, o Saramago, a quem haviam pedido para lhe dizer que o Ricardo Reis falecera. Desiludido com a república, perdidas as esperanças de reimplantação da monarquia, passara mais de quinze anos exilado no Brasil. Mas voltara. Voltara a Lisboa para morrer pouco tempo depois, vivendo aqueles últimos nove meses como um fantasma. Apesar da sua obsessão por Marcenda e da sua ligação com Lídia, não esquecera, nunca, a sua antiga paixão. Lídia. A outra Lídia. A verdadeira. A que ele havia criado e acarinhado. Acabara, assim, por viver um presente imerso no passado.

Lembrou-se depois das alarmantes notícias sobre Marrocos e o levantamento Franquista que alastrara à Península... Mas a situação não seria menos complicada na China e nas vizinhanças de Macau. Bem a norte, consolidava-se a invasão da Manchúria, perpetrada cinco anos antes, e o governo-fantoche de Manchukuo que os japoneses aí tinham instalado. Mais próximo de Macau, desenvolviam-se confrontos entre nacionalistas e comunistas, os quais haviam feito anteriormente uma ocupação sangrenta de Cantão. A ocupação durara poucos dias, mas a insurreição continuava.

Sentiu-se preocupado. Sabia que, uma vez em Macau, iria inevitavelmente sentir as consequências destes conflitos. 

Da família que deixara para trás, mulher e cinco filhos, poucas lembranças e nenhumas preocupações...

 

MS Sibajak

 

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publicado por blogdaruanove às 02:04

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