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Fev 10

 

Por vezes pensava que aquelas súbitas e inexplicáveis mudanças de humor raiavam a insanidade. Sentia-se em muitas ocasiões transportado para um mundo onde nada mais existia senão insatisfação e tristeza. E uma imensa saudade de vidas que nunca tinha vivido.

Parecia-lhe agora que as emoções da sua breve vida com Boubouka se sobrepunham à imagem de Liang, como se fossem uma projecção de momentos e sentimentos que nunca pensara partilhar, sequer, com Liang.  

Deitou-se de olhos fechados na cama, como se estivesse exausto, como se a luz que entrara pelas gelosias lhe tivesse sugado as forças. Lembrou-se de abrir os olhos, mas não conseguiu resistir à paz proporcionada pela cegueira avermelhada das pálpebras fechadas. Deixou o tempo passar naquele mundo que decidira não ver. 

Muito depois, abriu os olhos e viu a ventoinha parada, no tecto. Era uma visão estranha, aquela. Desde que chegara a Macau, habituara-se a ver as ventoinhas em constante movimento, no hotel. Das poucas vezes que as vira paradas, quando estava deitado, vira sempre as hélices alinhadas com os seus olhos, como que prolongando-se à esquerda e à direita. Agora, notava que estas hélices se alongavam da sua cabeça até aos pés, dando-lhe uma estranha sensação de desconforto. Era como se o medissem, como se fossem uma pequena fita métrica distorcida, encurtando-o e reflectindo aquilo que se passava dentro de si.

Estranhou-se a si próprio, ao insistir nestas ideias estranhas. Nunca se perdera assim dentro de si.

Ouviu o ribombar dos panchões. Levantou-se. Da varanda, via os intermináveis cordões de luz a estrelejarem, desaparecendo em sons que ecoavam pelas ruas até quase se perderem no mar.

Em baixo, por entre a multidão, viam-se as hap ló pairando sobre as cabeças ou esquivando-se entre as dezenas de pernas e braços. Hap ló! Tinha que levar uma lembrança para Tchang! Tinha que lhe mostrar a sua gratidão pelo convite e desejar-lhe as maiores felicidades para o novo ano. Deveria levar uma daquelas caixas de doces tradicionais ou antes um terno enfeitado, como faziam todos os macaístas convidados por chineses?

Para Liang seria fácil. Levar-lhe-ia algum dinheiro da sorte num pequeno envelope vermelho, como se fazia para as crianças e pessoas solteiras. Sorriu para si mesmo, corrigindo-se... Levar-lhe-ia algum lâi si num hong pau... Agora dava consigo a pensar nas duas línguas...

Lembrou-se depois de uma tacinha em prata que havia comprado. Achara-a curiosa. Representava uma sampana. Só quando a virara é que se apercebera da sua particularidade. Havia sido feita em Hong Kong, por Wai Kee, a partir de uma moeda chinesa de prata. Um dólar. A base era constituída pela efígie de Chang Kai-Chek. Seria certamente uma maneira delicada de desejar um bom ano a Tchang, sem o insultar com qualquer lâi si, inapropriado para a sua idade ou o seu estatuto.

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 16:03

3 comentários:
Bom dia

Tenho lido alguns dos seus escritos e porque vejo que é uma pessoa bastabte informada,
gostaria de lhe dizer que tenho umas chévenas e respectivos, "made in Japan", mais pequenas que as de café, mas sem serem de criança. Serviam o quê? Saké , chá não me parece.

Outra coisa,lê-se muito sobre peças de Sacavém, mas são raros os comentários sobre
"cuspideiras"

Ficaria agradecido pelas suas respostas e se for caso , enviar-lhe-ei fotos.

Alvaro Correia
Alvaro Santos Correia a 29 de Abril de 2016 às 11:36

Boa tarde, Álvaro Santos Correia.

Embora as suas questões estejam algo deslocadas neste espaço, deixarei aqui o meu comentário uma vez que não disponho do seu contacto.

Em primeiro lugar, o facto de as suas peças apresentarem a inscrição "Made in Japan" significa que correspondem a uma produção industrial destinada à exportação, não sendo anteriores a 1887, data em que a legislação inglesa de importação passou a exigir essa menção.

Uma vez que não refere especificamente a capacidade das chávenas, devo referir que não é invulgar encontrar pequenas chávenas para café, destinadas a conterem apenas 20 a 30 ml., na viragem do século XIX para o século XX, particularmente nos E.U.A.

Como saberá, a tradição oriental, quer para o chá quer para o saké, utiliza habitualmente recipientes sem qualquer asa.

Quanto às escarradeiras, não sei que possa comentar, especificamente, sobre estas peças características do século XIX e particularmente associadas, tal como os lenços tabaqueiros, ao hábito do consumo de rapé ou mesmo, numa versão mais prosaica, ao tabaco de mascar.

Também não vejo que mais possa comentar sobre as práticas sanitárias que eventualmente as possam associar à doença do século - a tuberculose.

Saudações.

BR9 / MAFLS

Muito grato pela sua resposta.
Saudações
Alvaro Correia
Alvaro Santos Correia a 7 de Maio de 2016 às 18:35

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