06
Fev 10

Fokker XII, ao serviço da KLM (1936)

 

Boubouka mantinha o seu espaço privado e as suas outras relações afectivas bem longe desta aventura amorosa. Sabia que não passaria disso, apesar de a estadia do amante se ter prolongado já por duas semanas. Os folhetos da KLM estavam agora espalhados pelo quarto, hesitantes cartas de despedida anunciando uma partida inevitável.

A paixão continuava. A atracção do calor e do movimento dos corpos era ainda irresistível. Mas o olhar dele cada vez mais se desviava para as imagens dos aviões... "Já terão colocado os novos Fokker ao serviço? Conseguirei um lugar em breve?", pensava... Não tinha dito a Boubouka que o prolongamento da sua estadia se devia também ao exíguo número de lugares disponíveis em cada avião. Nem mesmo os novos aparelhos de carreira da KLM, os FXVIII, deveriam transportar mais de dez passageiros...

Durante as ausências de Boubouka, passava o tempo cada vez mais intrigado com os relatos de um autor fora de moda, que descrevia o ambiente de Macau no início do século... "Scena domestica. Lá está o meu cosinheiro a bater cabeça, como se diz n'este Macau; lá está elle rezando aos seus deuses protectores. Que lhe preste!"... Estes ritos, para si exóticos, prometiam-lhe um mundo que ultrapassava o imaginável, mesmo para quem já tinha contactado com outras culturas, como a africana... Ah! Mas África não era apenas África, uma só África... Sucederia o mesmo no Oriente?

Todos os relatos de Wenceslau de Moraes lhe pareciam misteriosos, como aquela outra impressão de Macau, que ele registara... "O que faria aquelle bando de leprosos, que a policia da colonia surpreendeu e agarrou? O que faria aquelle bando de leprosos, além no meio do rio, sobre um miseravel barco, pela noite velha, tenebrosa e fria, ora pairando e deslisando ao grado da corrente, ora remando manso, de margem para margem, em vigia?..."

Veio-lhe à memória o velho conceito medieval da nave dos loucos. E imaginou dezenas, centenas, milhares de  loucos acotovelando-se numa pequena embarcação. De repente, intrometiam-se na sua imaginação personagens dos quadros de Bosch. Guinchando, uivando, acenando! E reclames luminosos, piscando e anunciando: Futuro! Futuro! E o nome desconhecido de Katherine Porter! (Quem seria aquela?) E um navio viajando entre o México e a Alemanha... o Vera! (Que era aquilo? Nunca tinha viajado naquele navio, nunca tinha ido ao México...!) E datas, repetidas, sempre as mesmas: 1931! 1962! 1963! 1931! 1962! 1963! (1931? Nesse ano estava em Angola... 1963? O ano de nascimento da sua neta, mas então já estava morto, tinha acabado de morrer nesse mesmo ano... Uma neta? Morto? E que raio estaria ali a fazer o 1962?...)

Levantou-se, cambaleando, enquanto tentava mover desajeitadamente lábios e língua, pensando, mais que dizendo, para si próprio: "Diabo! Se umas simples fumaças de narguilé me deixam assim neste estado, em Macau tenho que me acautelar..." 

 

Fokker XVIII, ao serviço da KLM (1936)

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 11:39

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