20
Fev 10


 

Aquela agitação natalícia toda, mais interior e nostálgica do que exterior, uma agitação nunca experimentada no ambiente de Macau, levou-o novamente à loja de Veng Seng Long.

Recordava as horas, infindáveis, que passara no sótão da casa dos avós, remexendo em antigos baús e peças de mobiliário, maravilhando-se com a mínima descoberta, por insignificante que fosse. Um vidro inútil, manchado e esquecido, uma ferramenta abandonada a um canto, um velho jornal com notícias do século passado.

Certo dia encontrara um embrulho de papel amarelado, quase escondido junto ao forro inclinado do tecto. Ansioso, a tremer, desembrulhara-o, acabando por descobrir uma imagem, em madeira, de Cristo na cruz. Sem braços. Sem cruz. Tocara-lhe levemente com as mãos nuas, impuras da sujidade, sentindo um leve tremor quando passara os dedos pelos joelhos ensanguentados da imagem. O caminho do Calvário...

Lembrava-se de ter pensado nisso, naquele momento. Perguntara a si próprio se também viria a ter um calvário, fado que parecia inevitável a toda a gente. Todos nós haveríamos de ter um calvário, certamente. "Todos temos de carregar a nossa cruz...", diziam as velhas da sua meninice à porta da igreja, encolhendo vagarosamente os ombros sob os xailes negros. Acompanhavam o gesto com um leve inclinar de cabeça e um lento franzir de testa. Os suspiros conformados vinham depois, perdendo-se na aragem do fim da tarde.

Quando começara a viajar sempre se interrogara, inquieto, sobre tal calvário, procurando adivinhar se aquele desterro voluntário significaria o início do seu calvário. Calvário... As pessoas nunca pensavam nisso, provavelmente, mas o calvário era a solidão. A solidão que Jesus sofrera na via sacra era o verdadeiro calvário. Abandonado por tudo e por todos. Até por Deus. Até por si próprio.

E assim, para vencer o seu calvário, entrara naquele bazar de maravilhas que era a loja de Veng Seng Long. Teria a ilusão de estar acompanhado e a felicidade de se perder entre o cálido brilho dos metais, procurando iluminar a memória de um sótão condenado às trevas quase desde a infância.



Macau, cerca de 1936.

 

© Blog da Rua Nove  

publicado por blogdaruanove às 20:40

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