19
Fev 10

Macau, cerca de 1936.

   

Poucos dias depois, sem qualquer surpresa, acabou por encontrar uma casa que lhe agradava. Ficava num segundo andar. As janelas estavam providas de grandes portadas, que coavam diagonalmente a entrada da luz, por entre pequenas tiras de madeira.

Gelosias. Sentira uma satisfação inexplicável quando a palavra lhe ocorrera. Gostava dela e do que a sua origem sugeria. Ciúmes. Pequenas barreiras que procuravam manter o ciúme e a inveja ao longe, resguardando a privacidade do lar.

As gelosias das varandas apresentavam um corte a meia altura. Deixavam abrir apenas a parte de cima, guardando ainda alguns segredos da casa, ou então apenas a parte de baixo, quando o sol estava no zénite, conservando sombra e frescura no quarto e nas salas. Das varandas via-se uma nesga de mar, as casas apinhadas do bairro e da cidade e a agitação das ruas. Principalmente a agitação da Rua de S. Domingos.

No prédio, a vizinhança não lhe pareceu muito barulhenta. Confirmou as condições do contrato com o homem que lhe mostrara a casa, por indicação de um dos empregados do Central. Havia abordado alguns funcionários para esse efeito, pouco depois de se registar no hotel. Não quisera envolver os seus serviços nestes assuntos. O seu sentido de privacidade passava por essa atitude discreta. Depois de verificar todos os pormenores, alugou a casa.

Dirigiu-se depois para a loja da carpintaria Iu-Seng e C.ª. Viu várias mobílias torneadas e esculpidas ao gosto oriental. Decidiu-se por mobiliário de formas mais sóbrias e geométricas.  Para o quarto, uma cama à francesa. Mais baixa e mais estreita, de corpo e meio. Mobiliário à francesa. Eram conhecidas assim, em Portugal, as peças que apresentavam linhas mais modernas, muito diferentes da mobília pesada, com decoração setecentista, que ainda predominava no gosto da aristocracia e das classes altas. Achou graça à ironia da escolha. Estava a ser bastante conservador por não ceder à decoração oriental e demasiado moderno por contrariar o gosto português... Hesitou em relação ao toucador. O psiché. Uma casa mobilada por um homem deveria apresentar uma peça tão feminina? Decidiu assumir a ousadia do gosto francês e incluir o toucador.

Deu ordens para que entregassem tudo apenas algumas semanas mais tarde. Embora estivesse no oriente, a época de Natal e Ano Novo era uma época de agitação entre alguns macaenses e os macaístas comportavam-se como se estivessem a celebrar a quadra em Portugal.

Poderia mudar-se em meados de Fevereiro, no início do novo ano chinês. O ano do búfalo.

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 20:33

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