19
Fev 10

 

Tinha passado aquela noite rodeado de sorrisos, perdido no tempo. O sorriso do daymio confundia-se agora com centenas de outros sorrisos. Minúsculos sorrisos talhados em  tiras de marfim, soltando-se de figuras em madeira. Sorrisos de sorridentes budas espapaçados e de longilíneos monges, também sorridentes. Esculturas que vira na loja de Veng Seng Long. Os sorrisos iam-se transformando numa brilhante poalha de luar saindo da alva e fresca face  de Liang. E do rosto de Liang saía o doce sorriso de Boubouka.

O sorriso alargava-se, ganhando sonoridades estranhas, assustadoras. Caíam-lhe em cima as bocas, as gargantas e os gritos dos suicidas que se lançavam do terraço do hotel. Ele, então, acordava. Afogado em gritos. O peito arfando, o pijama encharcado.

Levantava-se e ia até à janela, certificar-se que ninguém se tinha estatelado na rua, que nenhum cadáver misturava o seu sangue com a humidade do chão. Estremecendo, via então longos traços vermelhos que se estendiam entre o pavimento do passeio e a terra molhada da rua. Ao fim de alguns momentos angustiantes, percebia que eram apenas reflexos das luzes de néon, tremeluzindo com mais regularidade do que o pulsar do seu coração. 

Retirava impacientemente o pano que tapava o copo e garrafa na mesinha de cabeceira e bebia um enorme copo de água. De um só trago. Fazia aquilo como teria feito outra coisa qualquer. Fumar um cigarro sem se aperceber do sabor do tabaco. Tomar um comprimido, apercebendo-se depois que havia tomado três ou quatro. Fizera aquilo sem se aperceber do que fizera. Era apenas um gesto. Um gesto para exorcizar o que não compreendia.

Permanecera acordado até de manhã, adormecendo apenas ao som dos comerciantes, dos animais e dos fregueses que vinham para o mercado.

Levantou-se a meio da tarde, decidido a encontrar casa ainda durante aquela semana. Afinal a estadia no hotel não lhe trazia mais informações do que aquelas que poderia encontrar nas ruas ou através de contactos bem relacionados.

Além disso, não poderia adiar por muito mais tempo a viagem até às ilhas.

 

Macau, cerca de 1936.

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 10:30

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