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Fev 10

 

Era a sua última noite  a bordo. Ocorreram-lhe velhos clichés europeus acerca do mundo oriental. A Guerra do Ópio. A revolta dos Boxers. Os coolies. Os riquexós... Inevitavelmente, também, os lugares-comuns portugueses – um conjunto de porcelana da família verde ou rosa trazendo cintilações a escuros móveis D. João V, cofrezinhos com pequenos pedaços de madrepérola embutida, leques de charão... Chinesices.

Tudo seria bem diferente desse mundo imaginado, concerteza. Um mundo criado pela sobranceria ocidental, cultivando a superficialidade do exotismo. Bastava sentir aquela brisa. Quente e húmida. Uma brisa suave e enganadora, que se poderia transformar de um momento para o outro. Transformar-se no bafo poderoso e destruidor de um mítico dragão.Tai Fon. O que seria viver com tufões várias vezes ao ano? Quais seriam as aflições de cada um? Passado o tufão, voltaria a humidade. Uma humidade que oprimiria, o calor entrando em cada pessoa como bafo de dragão, obrigando os ocidentais a sucumbir. Como haveriam o fato, o colete, a gravata, de resistir? Que seria do disfarce da civilização ocidental? Aguardaria inevitavelmente pelos escassas semanas em que a temperatura baixasse dos vinte graus...

Havia muitos dias já que os cavalheiros de bordo tinham adoptado fatos de linho e algodão. Cores mais claras, gravatas mais alegres, aquilo que pensavam ser uma informalidade mais adequada ao clima. Povoavam agora o deck como um desordenado cardume de peixes tropicais, nos seus salpicos e riscas coloridas. Sentia-se a agitação que a aproximação a um porto sempre provocava. Falava-se mais alto, os risos davam lugar às gargalhadas. Os homens antecipando os prazeres de uma fugaz ida a um clube, as senhoras imaginando as emoções de um passeio de riquexó e sentindo a volúpia da seda e das pérolas. 

 

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 10:32

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