05
Fev 10

  

Port Saïd, 1936

 

Era uma longa viagem por mar. Quase dois meses, de Lisboa a Macau. Mais de duas semanas, de Port Saïd a Singapura.  E agora tinha o anúncio da KLM, ali, a tentá-lo. Antes tivesse apanhado o avião. Fazia escala mesmo ao lado, no Caïro, seguindo logo após para Gaza, Bagdad, Karachi e Bangkok. Ainda poderia apanhá-lo... Mas depois teria de descer em Palembang ou Batavia para apanhar novamente o barco... Não, seria melhor continuar no Sibajak. Um navio cómodo, construído oito anos antes, remodelado havia poucos meses. Além disso, vinha quase lotado desde Roterdão e os portugueses eram poucos. Disfrutava, assim, de uma presença discreta, quase anónima. Situação muito do seu agrado.

Os pensamentos ocupavam-se já de outros assuntos. Amigos que se afastavam ou desapareciam. No ano anterior, em Julho, soubera que o Miguéis partira para Nova Iorque, sem intenções de voltar. Agora, a carta. Recebida na posta restante do porto, escrita por um miúdo que lhe era quase desconhecido, o Saramago, a quem haviam pedido para lhe dizer que o Ricardo Reis falecera. Desiludido com a república, perdidas as esperanças de reimplantação da monarquia, passara mais de quinze anos exilado no Brasil. Mas voltara. Voltara a Lisboa para morrer pouco tempo depois, vivendo aqueles últimos nove meses como um fantasma. Apesar da sua obsessão por Marcenda e da sua ligação com Lídia, não esquecera, nunca, a sua antiga paixão. Lídia. A outra Lídia. A verdadeira. A que ele havia criado e acarinhado. Acabara, assim, por viver um presente imerso no passado.

Lembrou-se depois das alarmantes notícias sobre Marrocos e o levantamento Franquista que alastrara à Península... Mas a situação não seria menos complicada na China e nas vizinhanças de Macau. Bem a norte, consolidava-se a invasão da Manchúria, perpetrada cinco anos antes, e o governo-fantoche de Manchukuo que os japoneses aí tinham instalado. Mais próximo de Macau, desenvolviam-se confrontos entre nacionalistas e comunistas, os quais haviam feito anteriormente uma ocupação sangrenta de Cantão. A ocupação durara poucos dias, mas a insurreição continuava.

Sentiu-se preocupado. Sabia que, uma vez em Macau, iria inevitavelmente sentir as consequências destes conflitos. 

Da família que deixara para trás, mulher e cinco filhos, poucas lembranças e nenhumas preocupações...

 

MS Sibajak

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 02:04

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