15
Fev 10

Vinheta de Raymond Hull (1934).

 

Macau não lhe pareceu uma cidade muito grande. "Mas a dimensão das cidades, à noite, é sempre outra. Como se existissem sempre duas cidades em cada cidade. E habitantes diferentes para cada uma delas...", pensou. Durante a tarde, entontecido pelos sons e pelos aromas estranhos, quase não reparara na cidade, na sua arquitectura. Agora, à noite, as ruas pareciam-lhe tão  labirínticas e enoveladas como aquele lacassá que lhe haviam servido ao jantar.

Não estando habituado a cidades com lojas abertas até tão tarde, pareceram-lhe os sons e rumores daquelas horas ruídos estranhos. Mas não ruídos exóticos. Apenas ruídos inesperados. Ruídos que contrastavam com a memória que tinha dos silêncios nocturnos nas cidades europeias. Ruídos que contrastavam com o ligeiro aspecto ocidental de alguns prédios.

Naquelas ruas por onde andara predominavam prédios de três e quatro pisos. Apresentando quase todos lojas no rés-do-chão, tinham estreitas varandas correndo ao longo da fachada, nos andares superiores. Ténues luzes escorriam dos seus interiores, contrastando com o vozear que se escapava de algumas casas e nada tinha de ténue. Macau não lhe pareceu uma cidade de murmúrios. "Talvez as pessoas murmurem noutras ocasiões, contrariando o ruído das manhãs ou a agitação das tardes..." Sempre pensara na discrição como característica dos povos chineses. Descobria agora que essa discrição, afinal, poderia transformar-se em vigorosa gesticulação e alta vozearia. "Questão de classes sociais, talvez..." Enquanto assim pensava, notou as gelosias de algumas casas sem varanda. A temperatura da noite e as cores daquelas ripas de madeira lembraram-lhe algumas casas do Funchal. Eram contudo diferentes, estas gelosias. A abertura na fachada era a de uma alta porta de varanda europeia, encimada por uma armação de madeira com duas ou três vidraças. As gelosias surgiam então, subdivididas horizontalmente em duas secções que chegavam até ao nível do soalho. As duas secções do meio estavam abertas de par em par na maioria dos prédios. Destas casas não pareciam sair tantas vozes...

Parou junto de quatro colunas rematadas com capitéis. As colunas centrais prolongavam-se em dois pisos superiores. Três pesadas portas de madeira, almofadadas, surgiam quase embutidas numa fachada de nítida influência europeia. Encontrava-se numa esquina. Descobriu que estava na rua de S. Domingos.

Não conseguiu conter uma gargalhada, lentamente diluída num sorriso irónico. Macau... E logo tinha que ir dar a um templo cristão! Virou costas e mandou parar um riquexó que passava. "Central!", disse.

O sorriso ainda lhe marcava a face quando o riquexó arrancou, trazendo-lhe a brisa de Macau...

 

Macau, cerca de 1936.

 

© Blog  da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 20:47

 

Antes de desembarcar em Macau estava apreensivo. Solicitara que ninguém o fosse esperar. Não tinha a certeza que respeitariam o seu desejo. Sempre gostara de discrição e temia que algum funcionário da administração, mais subserviente e menos discreto, surgisse no porto, cumprindo ordens. Mas não. Tinham respeitado o seu pedido. Os colegas mais  cínicos diriam antes que tinham obedecido às suas imposições...

Agradava-lhe aquele liberdade de poder ser marginal à hierarquia, de poder dispensar o fato e a gravata, de poder dispensar  recepções e protocolos.

Instalou-se no hotel, afinal familiarmente referido como Central e não como Grand, ao contrário do que pensara. Era esperado como qualquer outro hóspede que tivesse efectuado uma simples reserva telegráfica. Agradou-lhe aquela simpatia anónima e profissional. Aceitara assim não resmungar, desta vez, contra o contínuo e superficial sorriso oriental.

Decidiu sair ao fim da tarde. O fascínio dos aromas tinha-o deixado entusiasmado com a descoberta de novas sensações. Uma refeição nas ruas parecia-lhe mais atraente do que um jantar convencional e formal no hotel. Deambulou durante algum tempo por aquele mundo surpreendente. Nunca imaginara Macau assim. Mas não se surpreendeu com aquela conclusão. Isso já ele esperava, de antemão. Os novos lugares nunca correspondem àquilo que, à distância,  fazemos deles.

Encontrou um restaurante numa rua estreita e mal iluminada. Na viela, uma multidão barulhenta movia-se entre vapores e aromas  indescritíveis. Divertiu-se a observar inúmeros caracteres que descreviam inúmeros pratos. Fascinava-o também o facto de ignorar o significado daquele universo de pinceladas, vigorosas e ordenadas, anunciando mundos e sabores desconhecidos. Decidiu-se. Escolheu algo que desconhecia, claro. Divertiu-se quando acabou por perceber que tinha pedido lacassá. Divertiu-se ainda mais quando a massa chegou e tentou comer com fai-chis.

Era obra! Um ocidental tentando comer com pauzinhos pela primeira vez, sem instruções nem qualquer outra ajuda. E não podia ter escolhido nada mais a não ser massa... Divertidíssimo!

Nem queria acreditar. Sentia-se ridículo mas estava a divertir-se com a sua própria figura...

 

A colina da Penha. Macau, cerca de 1936.

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 10:42

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