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Fev 10

Ilustração de Câmara Leme (1930-1983).

 

Era estranho. Aproximavam-se do delta do Rio das Pérolas. De Macau e de Hong-Kong. Mas parecia que para os passageiros só existia Macau. Algo de misterioso, quase proibido, parecia envolver o imaginário daquela pequena península e daquelas pequenas ilhas. Macau. O jogo, as pérolas, o ópio, as sedas, não bastavam só por si para explicar a aura e as brumas deste nome. Macau...

Despediu-se cerimoniosamente do casal Yoshitaki, reafirmando-lhes a sua gratidão pelas ofertas e pela amizade. Eles lembraram-lhe que Hong-Kong ficava mesmo ao lado, deixando o convite para uma visita. Acedeu, com um sorriso e um aceno silencioso.

Espraiou então a vista pela linha do horizonte. Identificou ao longe pequenos pontos que conhecia de fotografias. Imaginou, mais do que viu, pormenores da Guia, da Penha, das muralhas do Monte. Em baixo alongar-se-ia, como referiam várias descrições da região, a curva graciosa da Praia Grande.

A chegada a terra surpreendeu-o. Tinha-se preparado para todas as diferenças. Mas não para aquelas. Aquelas eram demasiado diferentes. Sentiu-se abalado no mais íntimo de si. Teve que fechar os olhos.  Uma coisa de cada vez. Começaria pelos sons, passando lentamente ao olfacto. Mas os cheiros tomaram conta das suas narinas e das suas entranhas. De uma forma avassaladora.

A maresia das semanas anteriores desvaneceu-se com a inesperada explosão de todos aqueles cheiros inacreditáveis. Eram os aromas, mas também o bulício e o burburinho. Um enjôo jamais experimentado em alto mar. A tontura do movimento constante, dos sons continuados. O aparente caos dos riquexós, os gritos dos condutores, a multidão caminhando apressada e parecendo traçar caminhos alternativos, construindo as suas próprias ruas. Tudo aquilo contrastando com a inabalável placidez dos passageiros dos riquexós e a ondulada calma azul do fumo do tabaco. Um tabaco que se confundia com as longas barbas de alguns velhos comerciantes chineses, sentados à entrada de pequenas lojas. 

Tinham-lhe dito que poderia escolher o alojamento. Estaria pago durante as primeiras semanas da sua estadia. Inicialmente deixara-se seduzir pelo glamour do Hotel Bela Vista. Considerou depois que esse glamour e a própria localização do hotel o manteriam afastado do movimento da cidade. Como alternativa, tinha o Grand Central e o Hotel Riviera, quase lado a lado, na mesma rua. Soubera que no início da década o antigo President mudara de nome, era agora o Grand, e de proprietários, eram agora chineses.

Telegrafara de bordo, havia já várias semanas, fazendo a reserva. Ficaria no Grand.

 

Macau, cerca de 1936.

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 21:37

 

Era a sua última noite  a bordo. Ocorreram-lhe velhos clichés europeus acerca do mundo oriental. A Guerra do Ópio. A revolta dos Boxers. Os coolies. Os riquexós... Inevitavelmente, também, os lugares-comuns portugueses – um conjunto de porcelana da família verde ou rosa trazendo cintilações a escuros móveis D. João V, cofrezinhos com pequenos pedaços de madrepérola embutida, leques de charão... Chinesices.

Tudo seria bem diferente desse mundo imaginado, concerteza. Um mundo criado pela sobranceria ocidental, cultivando a superficialidade do exotismo. Bastava sentir aquela brisa. Quente e húmida. Uma brisa suave e enganadora, que se poderia transformar de um momento para o outro. Transformar-se no bafo poderoso e destruidor de um mítico dragão.Tai Fon. O que seria viver com tufões várias vezes ao ano? Quais seriam as aflições de cada um? Passado o tufão, voltaria a humidade. Uma humidade que oprimiria, o calor entrando em cada pessoa como bafo de dragão, obrigando os ocidentais a sucumbir. Como haveriam o fato, o colete, a gravata, de resistir? Que seria do disfarce da civilização ocidental? Aguardaria inevitavelmente pelos escassas semanas em que a temperatura baixasse dos vinte graus...

Havia muitos dias já que os cavalheiros de bordo tinham adoptado fatos de linho e algodão. Cores mais claras, gravatas mais alegres, aquilo que pensavam ser uma informalidade mais adequada ao clima. Povoavam agora o deck como um desordenado cardume de peixes tropicais, nos seus salpicos e riscas coloridas. Sentia-se a agitação que a aproximação a um porto sempre provocava. Falava-se mais alto, os risos davam lugar às gargalhadas. Os homens antecipando os prazeres de uma fugaz ida a um clube, as senhoras imaginando as emoções de um passeio de riquexó e sentindo a volúpia da seda e das pérolas. 

 

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 10:32

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