10
Fev 10

 

Ocorreu-lhe, de repente, que nunca soubera responder a imensas coisas. Não soubera por que casara. Não soubera por que deixara a família. Não soubera por que deixara Boubouka. Não sabia por que ia para Macau. Deixava-se levar pela corrente... Uma atitude quase budista, pensou.

Riu-se daquela mania de fazer evocações e criar paralelismos eruditos. Fazia-o constantemente. Era um exagero. Até o fazia para si próprio... Continuou, contudo, o exercício, não se reprimindo e lembrando-se do que o miúdo, o Saramago, tinha escrito, citando as últimas palavras do Reis: "Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo..."

Sábio... As pessoas insistiam em confundir erudição com sabedoria... Elogiavam e apreciavam as referências supostamente científicas e as frequentes citações literárias. Simples exercício de memória, efémero fogo de artifício. De que lhes serviria a erudição, não sabendo o que queriam da vida? E aqueles que não se contentavam com o espectáculo do mundo e agiam? Até onde poderiam chegar? Tudo poderia ser uma contínua ilusão...

Uma maior ondulação do barco agitou a mesa, fazendo tinir as chávenas de chá e lançando pequenas manchas irregulares sobre a brancura da toalha. Iam-se alargando, como gotas de chuva sobre papel. Não ficavam, no entanto, mais claras. Lembrou-se do chá Lig, na moda em Portugal. Uma hábil promoção de chá importado, aproveitando as evocações exóticas do Japão de Moraes... Como estas, também as manchas desse chá não se esbatiam. Teriam elas a mesma cor sob a toalha? Qual o seu aspecto, vistas do avesso? Corresponderiam a uma outra realidade, ou seriam apenas um outro disfarce da mesma realidade, como o anagrama Gil, do chá?

Voltou a si, surpreendendo-se, como sempre se surpreendia, com a sua facilidade para divagar sobre banalidades e para se afastar de reflexões mais importantes. O seu pensamento analógico revelava-se uma armadilha em si mesmo. Dispersava-lhe as ideias, atenuava-lhe as emoções, distanciava-o do sofrimento.

Parecia não fazer questão em se conhecer a si próprio, nem em se preocupar com tudo aquilo que ia deixando para trás.

 

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 19:26

 

Debruçado, na amurada, deixava o olhar vaguear pela imensidão das águas. Uma imensidão agora marcada frequentemente pela linha montanhosa de inúmeras ilhas e ilhotas. Uma grande diferença da isolada vastidão do Índico, de que ele nem se apercebera. Os navios pareciam mais frequentes. Haviam-se cruzado já com o André Lebon, que fazia a ligação entre Marselha, a Indochina e o Japão. Lembrava-se ainda do que a imprensa europeia dissera do navio após o terramoto de 1923 e do auxílio que este prestara a Yokohama. Ao largo, muitas outras embarcações pontuavam o horizonte. Cargueiros, pequenos barcos de pesca, dezenas de  juncos.

Assestava os binóculos e perscrutava pormenores. Um passatempo comum entre os passageiros. A princípio ficou surpreso com a maioria destes barcos – não traziam bandeira ou pavilhão. Disseram-lhe que isso era habitual na navegação costeira e que muitos eram barcos de comunidades piscatórias, que não reconheciam qualquer soberania. Alguns outros, barcos piratas, mesmo. Quando surgia alguma bandeira, e agora era quase sempre a mesma, desde que se aproximavam das costas da China, tentava descobrir a que país pertenceria  a embarcação. Ficou confuso quando viu uma bandeira ostentando as cores que recordava como sendo de Manchukuo. Estavam demasiado longe da Manchúria para que isso fosse provável. E nem mesmo a rota comercial e militar que os japoneses haviam estabelecido alguns anos antes, para apoiar a ocupação, passaria tão a sul. Recordou então que a bandeira da Manchúria tinha adoptado as cores da China de Sun Yat-Sen. O amarelo, representando os manchús, ocupava o fundo, a três quartos, e as quatro listas limitavam-se ao canto superior esquerdo. Esta bandeira tinha cinco listas, de igual largura, e a todo o comprimento. Era a antiga bandeira da China. Riu-se de si próprio e da sua patetice, ao ignorar o óbvio. A nova bandeira, vermelha e azul, havia sido adoptada apenas em 1928 e provavelmente alguns pescadores ainda achavam que a antiga era válida. Ou então achariam que as duas eram válidas... Algo assim como ter dois ou três nomes diferentes, mas todos válidos... Um velho hábito chinês. Recordou, divertido, a perplexidade que havia sentido quando era criança e surgira a nova bandeira da república. E recordou, ainda, sorrindo, a confusão que um famoso pintor americano fizera, anos mais tarde, quando comemorou a vitória dos aliados e colocou na mesma tela, quase lado a lado, as duas bandeiras portuguesas – a monárquica e a republicana...

Voltou ao camarote. Decidira tomar algumas notas e registar impressões da viagem. Pegou na caneta de tinta permanente, desenroscando a tampa. Foi escrevendo, lentamente, "As velas destes pequenos juncos dos mares do sul da China..." A tinta verde dava uma tonalidade estranha à  letra cursiva que parecia adornar o papel. Escrevia as suas notas sempre a verde. Nos cadernos de viagem e no verso das fotografias. Todos lhe perguntavam o porquê daquela cor. Nunca soubera responder.

  

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 09:36

Fevereiro 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9





subscrever feeds
arquivos
2010

mais sobre mim

ver perfil

seguir perfil

37 seguidores

pesquisar neste blog
 
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

blogs SAPO