07
Fev 10

 

Era um amor sereno, aquele. Os momentos de cada dia surgiam como uma dádiva preciosa – as águas do Nilo transbordando e alagando os campos, o vermelho vivo dos grãos de uma romã madura, o aroma inebriante das flores de laranjeira na frescura de um pequeno pátio.

Tudo decorria a um ritmo natural, trazendo contentamento e felicidade. Ele e ela. Nada mais parecia existir. O mundo era uma relação a dois, desafiando a ansiedade insuportável, quase eterna, que antecedia cada chegada. Uma celebração renovada de cada regresso anunciado. Uma ilha suspensa no tempo.

Uma tarde, ele pegou numa velha fotografia que Boubouka guardava cuidadosamente. "Alguém da tua família?", perguntou. "Não... uma imagem de que gosto muito, nada mais..." Era uma mulher jovem, com um véu, um pequeno cilindro de cana, sobre a testa e o nariz, e uma criança de colo, sobre o ombro. "O berloque (não sabia que outro nome lhe dar) tem algum significado?", inquiriu, intrigado. "As mulheres de algumas tribos usam-no para indicar que são casadas..." Ele olhou outra vez para a fotografia, ficando pensativo. "Boubouka... Boubouka, por que é que nunca casaste?" Boubouka sorriu de uma forma enigmática. Ele lembrou-se imediatamente do sorriso da Gioconda e arrependeu-se da pergunta. Ocorreu-lhe que há fronteiras que não se devem ultrapassar, sob pena de não podermos voltar atrás... Mas já era tarde. Boubouka retorquiu-lhe, docemente, "E tu? Por que é que casaste?..."

  

 

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 18:55

Caïro, a mesquita de Kalann. Aguarela reproduzida num postal italiano de 1917.

 

Vagem. Há quanto tempo não lhe ocorria aquela palavra... Uma palavra que lhe recordava sempre o verde, as hortas, a sopa de legumes que detestava e o obrigavam a comer quando criança... Os tamarindos que Boubouka trouxera lembravam-lhe vagens. Estas, no entanto, eram umas vagens castanhas, de casca rija mas macia, aveludada.

Engraçado. Durante imenso tempo, no seu entendimento inexperiente, tâmaras e tamarindos eram o mesmo. Só um dia, no souk, quando lhe mostraram as tâmaras secas, meladas e mirradas (os estrangeiros gostavam delas  inchadas, carnudas, por isso se passavam pelo vapor antes da exportação), lado a lado com a camurça castanha dos tamarindos, é que percebeu. Ao entardecer, em casa, foi a alegria da descoberta de uma nova textura e de um novo sabor. Boubouka abrira os tamarindos e dera-lhos assim, sem mais explicação. Ainda hesitou, procurando os talheres... Depois riu-se, de si próprio e dos seus preconceitos. Usar as mãos, de preferência a direita. A esquerda seria para outras tarefas e por isso menos indicada para comer, por ser mais impura.

Não sabia que fazer com aqueles longos fios que envolviam a polpa, até que Boubouka os retirara e lhe levara bocadinhos do fruto à boca. Um sabor adocicado mas também ligeiramente ácido... Um sabor a ameixa. Sim, ameixas. Ameixas secas! Mas não cláudias ou caranguejas, antes ameixas vermelhas, ou mesmo abrunhos. Depois, a inesperada impressão dos caroços... Enormes e de formato estranho! Pareciam dentes, dentes de mogno. A polpa quase não os cobria.

Agora segurava na mão cascas e sementes que já lhe eram familiares. Lembrou-se das crianças que vira mais tarde, na rua, brincando. Das brincadeiras simples das meninas. Num ápice, levantou-se. Lavou e secou as sementes. Fez um colar. Quando Boubouka regressou com o tamr hindi colocou-lhe o colar. Naquele pescoço de bronze o colar parecia uma jóia. Boubouka sorriu. Ele sorriu. Beijaram-se. Ele suspirou. Era feliz. Tinha mais de trinta anos e nunca havia sentido tal felicidade...

 

(http://www.flickr.com/photos/harshadsharma/)

Photo © Harshad Sharma

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 10:50

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