06
Fev 10

Caïro, cerca de 1936

 

Boubouka sorriu quando regressou e viu  a chaleira de cobre colocada sobre a mesinha. "Hmmm, chá de menta..." Encontrara-o de bruços, sobre o leito, ainda completamente vestido. Tivera tempo de preparar a infusão e de beber um pouco, mas sucumbira logo depois. Junto da mesinha, o narguilé, na sua verticalidade bojuda, parecia um sacerdote. O sagrado sacerdote do silêncio. Hierático e digno, depois do sacrifício. Ao lado, no chão, uma das suas últimas obsessões, o Culto do Chá, do velho Wenceslau, aberto como uma tenda. Soubesse ela Português e teria achado irónica a passagem das páginas em que o livro ficara aberto – "Aponta-se-lhe mais outros condões: excita ligeiramente o organismo, combate o cançaço das vigilias, predispõe ao bem estar, infiltra no cerebro nao sei que subtil embriaguez, lucida todavia, que nos torna mais affectivos ás sensações de agrado e mais aptos ás elaborações do pensamento." 

Assim, ficou-se apenas pelo pensamento, igualmente irónico "Menta... não é suficientemente forte para ressacas, habibi..." Voltou a colocar o véu e saíu, dirigindo-se para o souk. "Tamr hindi, precisas é de um bom trago de tamr hindi, querido..."

Quando regressou, envolta no aroma das especiarias, encontrou-o já na varanda, alheio ao ruído da cidade e aos apelos do muezzin. Sorriu-lhe docemente, recebendo dele um olhar embaraçado... "Fiz chá de menta...", disse ele num sussurro. Boubouka sorriu ainda mais, e mostrou-lhe uma mão cheia de tamarindos. "Precisas de algo mais forte, habibi..." Ele ainda lhe começou a traduzir Wenceslau, querendo evocar as virtudes e condões do chá. Sabes, diz aqui que "O chá japonez tem a virtude de mitigar a sêde. Assim se explica o habito dos japonezes não beberem agua; mesmo na força dos calores, em pleno agosto, a chavena de chá, saboreada a goles, lhes dá pleno consolo..." Mas o sorriso dela deixou-o sem vontade de argumentar. "Precisas de uma bebida fresca, ácida e estimulante, habibi. Não estamos no Japão. Confia em mim, deixa-me tomar conta de ti..."

 

Photo © Solil

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 20:46

Fokker XII, ao serviço da KLM (1936)

 

Boubouka mantinha o seu espaço privado e as suas outras relações afectivas bem longe desta aventura amorosa. Sabia que não passaria disso, apesar de a estadia do amante se ter prolongado já por duas semanas. Os folhetos da KLM estavam agora espalhados pelo quarto, hesitantes cartas de despedida anunciando uma partida inevitável.

A paixão continuava. A atracção do calor e do movimento dos corpos era ainda irresistível. Mas o olhar dele cada vez mais se desviava para as imagens dos aviões... "Já terão colocado os novos Fokker ao serviço? Conseguirei um lugar em breve?", pensava... Não tinha dito a Boubouka que o prolongamento da sua estadia se devia também ao exíguo número de lugares disponíveis em cada avião. Nem mesmo os novos aparelhos de carreira da KLM, os FXVIII, deveriam transportar mais de dez passageiros...

Durante as ausências de Boubouka, passava o tempo cada vez mais intrigado com os relatos de um autor fora de moda, que descrevia o ambiente de Macau no início do século... "Scena domestica. Lá está o meu cosinheiro a bater cabeça, como se diz n'este Macau; lá está elle rezando aos seus deuses protectores. Que lhe preste!"... Estes ritos, para si exóticos, prometiam-lhe um mundo que ultrapassava o imaginável, mesmo para quem já tinha contactado com outras culturas, como a africana... Ah! Mas África não era apenas África, uma só África... Sucederia o mesmo no Oriente?

Todos os relatos de Wenceslau de Moraes lhe pareciam misteriosos, como aquela outra impressão de Macau, que ele registara... "O que faria aquelle bando de leprosos, que a policia da colonia surpreendeu e agarrou? O que faria aquelle bando de leprosos, além no meio do rio, sobre um miseravel barco, pela noite velha, tenebrosa e fria, ora pairando e deslisando ao grado da corrente, ora remando manso, de margem para margem, em vigia?..."

Veio-lhe à memória o velho conceito medieval da nave dos loucos. E imaginou dezenas, centenas, milhares de  loucos acotovelando-se numa pequena embarcação. De repente, intrometiam-se na sua imaginação personagens dos quadros de Bosch. Guinchando, uivando, acenando! E reclames luminosos, piscando e anunciando: Futuro! Futuro! E o nome desconhecido de Katherine Porter! (Quem seria aquela?) E um navio viajando entre o México e a Alemanha... o Vera! (Que era aquilo? Nunca tinha viajado naquele navio, nunca tinha ido ao México...!) E datas, repetidas, sempre as mesmas: 1931! 1962! 1963! 1931! 1962! 1963! (1931? Nesse ano estava em Angola... 1963? O ano de nascimento da sua neta, mas então já estava morto, tinha acabado de morrer nesse mesmo ano... Uma neta? Morto? E que raio estaria ali a fazer o 1962?...)

Levantou-se, cambaleando, enquanto tentava mover desajeitadamente lábios e língua, pensando, mais que dizendo, para si próprio: "Diabo! Se umas simples fumaças de narguilé me deixam assim neste estado, em Macau tenho que me acautelar..." 

 

Fokker XVIII, ao serviço da KLM (1936)

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 11:39

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